segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Na sala, com o doutor Sócrates




Por Daniel Pereira*

O Sócrates é invendável, inegociável e imprestável. O cartola que tascou essa pérola lá pelo começo dos anos 80 (recusando proposta do futebol francês pelo novo ídolo corinthiano) é aquele mesmo que agradeceu a Antártica pelas braminhas que ganhou numa festa do clube.

Diz a lenda que o inefável Vicente Matheus era um brucutu semianalfabeto. Há controvérsias. Noutra versão, ele dava essas mancadas de propósito. Pelo sim, pelo não, no caso das brejas ele poderia (na devida proporção) ter se eternizado como o McLuhan da microaldeia  global tupiniquim – afinal, hoje, braminhas e antárticas são cevadas do mesmo saco.

Especular o passado só serve para a história, costumava dizer Sócrates, o último filósofo do futebol brasileiro (antes dele, só me lembro do Afonsinho, também médico como o Magrão).

O ser socrático é paradoxal por natureza. O cidadão Sócrates Brasileiro um sujeito tímido e, como tal, como todo cara tímido, precisava de inspiração para extravasar sua oralidade genial. Já o jogador de futebol, não. Varapau longilíneo, antítese de atleta, só precisava evitar o contato físico com o adversário. Não sendo atleta na acepção do termo, como chegaria à condição de craque de futebol no meio das feras de sua época? Como só aos gênios é permitido inventar, ele mostrou ao mundo que o calcanhar não poderia ficar conhecido apenas como o ponto fraco de Aquiles, o herói grego da Ilíada.

Tempus fugit, a bola parou, o boleiro cansou e Sócrates saiu das páginas do noticiário esportivo/político para uma sala de UTI. Entrou, saiu, recaiu, voltou, hibernou e continuou vivinho da silva, para contrariar aqueles que já haviam encomendado seu paletó de madeira. Típico dele.

Alguns apressadinhos encomendaram coroas de flores e fecharam o caixão antes da hora. Outros não assinaram a sentença final, mas, por “esperteza” ou para “não tomar furo”, publicaram a biografia, ou partes dela, à guisa de enaltecer as qualidades do futuro defunto. Idiossincrasias próprias da natureza humana. Não haveria maktub antecipado, até por que ele mesmo, em 1983, já houvera decidido como e quando gostaria de se escafeder: “Quero morrer em um domingo, num dia em que o Corinthians for Campeão!”

Permitam, pois, que eu me “inclua fora” desse time de malsinados para revelar facetas do “outro lado” do personagem, que não são conhecidas pela maioria das pessoas. São duas ou três estorinhas que tive o privilégio de dividir com o Magrão em priscas eras. O Sócrates cantador/compositor: em 1980, entre os títulos de campeão paulista pelo Corinthians em 1979 e Copa de 1982, deixou-se levar pela paixão que sempre nutriu pela música de raízes.  Era outra paixão dele. Não cantava nada, mas intuiu, e foi convencido disso, que o sacrifício valeria para ajudar a acabar com o preconceito contra a música sertaneja. O repertório teria 12 clássicos da música caipira e o disco ganhou o título de Casa de Caboclo.

O lançamento do bolachão de vinil, capa vermelha, foi um sucesso. Pelo menos a cobertura da imprensa, nos estúdios da RCA. Da gravadora, fomos almoçar no Rodeio, badalado restaurante da época, nos Jardins. Algumas picanhas, caipirinhas e cervejas depois, ficamos à mesa apenas o Magrão, Osmar Santos, Osmar Zan, competente produtor musical da RCA, e eu. Fim de papo, cada um para seu lado. Eu já estava na rua, esperando o táxi, o Sócrates saia do estacionamento no seu Fiat 147 verde – não me lembro se a torcida do Corinthians pegou no pé dele por isso.

- Vai pra onde? Entra aí.
Ponderei o inconveniente, mão de obra, perda de tempo, coisa e lousa. Ele insistiu e lá fomos nós, embalados pela euforia natural das brejas, papo aberto de dois caipiras na cidade grande desafiando o trânsito caótico rumo ao prédio que abrigou o Estadão, na rua Major Quedinho, perto do Anhangabaú. O jornal já havia transferido sua sede para o bairro do Limão, mas eu continuava morando no prédio ao lado. Das conversas entre o lançamento do disco, o almoço no Rodeio e o trajeto até o centro da cidade, estabeleceu-se uma relação honesta e confiável entre o artista e o jornalista. Não ficamos amigos íntimos. Nem haveria por que. Algum tempo depois, o jornalista Claudir Franciatto estava lançando uma revista literária e o Sócrates nos deu uma bela entrevista –filosofia pura, zero de futebol.

Voltei a falar com ele em 1990, alguns meses antes da Copa da Itália. Aposentado fresquinho, com experiência no futebol da Bota (o tal do cálcio, na Itália), seria o comentarista ideal da rede de notícias que a agência Comunic (Cláudio Amaral) estava montando para cobrir a Copa e abastecer jornais e rádios Brasil afora. Pelo telefone, brifei. Ele gostou.

-Vem prá Ribeirão. Vamos conversar.

Fui. Na ampla e aconchegante sala do apartamento dele (rua São Sebastião, se não erro), ele, eu, e, a nos contemplar, convidativo,  um enorme freezer abarrotado de cervejas da Antartica. Minutos depois chegou o irmão Sóstenes, que também queria ser cantor e até mostrou um demozinho com suas composições. Aí, sim, meninos, eu vi, de fato, quem era aquele caboclo desengonçado que falava e bebia comigo como se morasse e estivesse no terreiro de sua casa de chão batido lá nos cafundós do Pará.

Claro, molhamos todas as palavras a que tínhamos direito. Moderadamente, até o fim, como convém aos empertigados bebedores sociais. Ele não pôde aceitar a proposta que eu levara – entre o telefonema e a minha chegada, surgiu outra melhor. Desconfio que ele já sabia disso.

Poderia ter saído de lá com a melhor história da vida e da obra daquele sujeito diferenciado e privilegiado,  mas tão simples como qualquer outro na multidão e, naturalmente tão contraditório quanto um socrático deve ser. Não fi-lo. Não me arrependo. Nunca mais cruzei pessoalmente com ele. Esperava vê-lo no Congresso Brasileiro de Escritores que foi realizado na cidade, entre 12 e 15 de novembro de 2011.

Não o vi, ele já se debatia numa luta desigual com a Veneranda. Impressionou-me, porém, o carinho que as pessoas dedicavam ao Magrão, sempre presente nos acalentados proseios do Pinguim entre os amigos Edwaldo Arantes, Nando Antunes (irmão do Zico que se apaixonou por Ribeirão Preto e ficou por lá) e Fernando Kaxassa – esses, sim, privilegiados por terem bebido na fonte e guardado para a posteridade outras histórias reveladoras do caráter e do ser humano que ele foi.

Quanto ao disco que ele gravou, não sei que fim levou. Mas sei que, naquela tarde regada a cerveja e papos da mais alta qualidade, o doutor Sócrates mais do que abriu o freezer de sua sala. Ele escancarou o livro de sua vida e hoje posso ver, claramente, da arquibancada, o tanto de páginas que ficaram em branco, indicando o quão prematura foi a sua saída de cena. 

Mesmo que tenha partido para uma viagem sem volta, Sócrates cumpriu fielmente o ensinamento do filósofo grego que foi a inspiração do seu nome, e deixou para sempre, na memória da saudade, o epiteto que talvez seja o que melhor define quem ele foi, o que fez e por que fez: “A vida não perscrutada não vale a pena”. 

*Daniel Pereira é jornalista e diretor de Comunicação da UBE/SP- pereira.daniel@estadao.com.br


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