sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O Esquife do Caudilho



Trailer (É o texto da apresentação) do livro que deve entrar em trabalho de parto em setembro. Críticas são bem-vindas.

O esquife do caudilho
Mors ET vita veneranda

Daniel Pereira


(Epígrafe para pg. 3)

O relógio da vida recebe corda apenas uma vez e nenhum homem tem o poder de decidir quando os ponteiros irão parar, se mais cedo ou mais tarde. O agora é o único tempo que você possui. Viva, ame e trabalhe com vontade. Não ponha nenhuma esperança no tempo, pois o relógio pode parar a qualquer momento”.

(Texto encontrado pela polícia de Chicago no bolso do paletó do advogado Easy Eddie, assassinado a mando do ex-patrão Al Capone. Depois de tantos anos livrando o mafioso da cadeia, Eddie o entregou ao FBI. Queria deixar uma boa imagem para o filho).


Apresentação

“Na realidade não há percepção que não esteja impregnada de lembranças”. Este axioma é do filósofo francês Henri Bergson, pesquisador da memória e prêmio Nobel de Literatura de 1927.Lembranças são matrizes da memória. Estão na literatura, nas artes plásticas, na fotografia, em um copo de uísque com guaraná, na igreja ou no bordel, numa fugaz e inofensiva troca de olhares...em qualquer lugar,  no tempo e no espaço, que a brevidade da vida pede pressa. Lembranças ficam acumuladas numa espécie de vale-vida. Um dia ele perde a validade. E com ele também levamos nossas lembranças.
Assim, seguindo o exemplo de Rubem Alves, “contei meus anos” e cheguei à seguinte conclusão: antes que o meu vale-vida se esfarele na poeira do tempo, e para usar uma expressão da moda, peço licença para compartilhar algumas das muitas lembranças que insistem em sair do escaninho da memória de um jornalista já entrando em provecta idade. Provecta, bem entendido, não senil.
Relutei em publicá-las, mas acabei convencido docontrário ao participar do Salão do Jornalista Escritor, fórum onde esses espécimes de candidatos ao panteão da intelectualidade terrena se encontram para discutir se um pode ser o outro e ao mesmo tempo os dois, e até que ponto essa bigamia não é perniciosa.
O Esquife do Caudilho é um relicário – como diria Salomão Ésper– que entrelaça histórias de amizade, vida e morte, transformadas em prosaica reportagem devidamente desautorizada por seus personagens – até porque a maioria já não está mais entre os vivos. Isso inclui a protagonista, aqui batizada de Veneranda, invisível, mas presente do começo ao fim. Pense naquela figura esguia vestida de preto, foice no ombro, e das peripécias que ela vive armando para atazanar os pobres humanos, como se não tivesse nada mais interessante a fazer nessa galáxia. Uma consumição.
Foi assim que, entre a infinidade de desafetos que coleciona desde a inauguração da Humanidade, ela recentemente terçou farpas com o escritor Ariano Suassuna, supondo que o octogenário paraibano, prostrado no leito do hospital, já estivesse com um pé na cova. Ainda não estava e, naquele dia, deu um carreirão na “caetana” (é assim que ele se relacionava com a morte) e mandou-lhe um recado peremptório: “Não pretendo morrer”! Cabra macho, Suassuna tinha consciência de que seu vale-vida começava a se amarelar e acabou perdendo a batalha final para um AVC. Como foi isso, Chicó?  “Não sei, só sei que foi assim”.
O empresário Roberto Marinho também abominava a ideia. Levava tão a sério essa bobagem de imortal, epíteto que os membros da Academia Brasileira de Letras se atribuem, que, quando falava sobre o futuro fazia questão de ressalvar: “Se um dia eu morrer...”.Vá lá. De repente, o empresário foi leitor voraz de Freud, para quem, “no inconsciente, cada um de nós está convicto de sua imortalidade”.
Há, também, quem se surpreenda(ou faça bravata) quando a Veneranda leva alguém muito idoso, mesmo que já venha doente há bom tempo e esteja no bico-do-corvo. Vejam como reagiu o veterano ator Christopher Plummer, aquele dos filmes de terror, quando soube da morte, aos 91 anos, da atriz Eleanor Parker, com quem contracenou (ela, a baronesa) no filme A Noviça Rebelde. “Não posso acreditar na notícia. Estava convencido de que ela viveria para sempre”.
Afinal, por que as pessoas temem a morte se ela é o fim da linha, consequência natural da vida? Se começamos a morrer exatamente no dia em que nascemos? Há até quem nem chegue a nascer. E quanto àqueles que evitam pensar na morte supondo que ela nunca o alcançará, ou à família e as pessoas que lhe são caras?  A Veneranda é implacável, é a mais óbvia das previsões dos humanos, com 100 por cento de acerto. Não há nada mais subjetivo, exclusivo, imutável e intransferível do que a morte. Nem se pode comparar com o evento do nascimento. Este é festa, aquela...tragédia.
A ideia da morte como tabu foi sacralizada pela sociedade ocidental, que criou muletas e metáforas para impedir que sequer o nome dela fosse mencionado em conversas de crianças. A finitude da vida virou pânico quando deveria ser algo visto como apenas um medo natural. O psicanalista Contardo Calligaris revelou, em uma de suas crônicas no jornal Folha de S. Paulo, que foi testemunha solitária da Veneranda quando ela veio buscar o avô. “Ele se apagou nos meus braços enquanto o sangue jorrava da garganta dele, a jatos longos e descontínuos, pelo buraco aberto de sua traqueostomia...”. À época com 11 anos, Calligaris conta que tinha medo do escuro e funda-se na experiência com o avô para também questionar se existe uma idade ideal para falar com crianças sobre a morte.
No meu caso, a paura aflorou de um episódio transcendental que presenciei quando garoto, mais precisamente na manhã do dia 24 de agosto de 1954 –data, todo mundo sabe, que ficou marcada como um dos momentos mais emblemáticos e de profunda comoção popular na história recente do país. Na manhã daquele dia, um tiro de Colt 38, um só tiro, encerrava a mais grave crise do Brasil República e trazia à luz aquele que viria a ser o maior mito da política tupiniquim: Getúlio Vargas.
Eis o ponto de partida deste despretensioso ensaio nostálgico baseado em histórias reais e “causos” que vi e ouvi. Tentei narrá-los com a imaginação mais prenhe do que a de Ariosto, o poeta italiano da Renascença, autor de Orlando, o Furioso, que Machado de Assis resgata em Dom Casmurro. Ou, para corroborar o aforismo atribuído ao escritor alemão Walter Benjamin, “o narrador conta o que ele extrai da experiência - sua própria ou aquela contada por outros. E, de volta, ele a torna experiência daqueles que ouvem a sua história".
Nesse leque misturam-se traumas de infância, medo de enterro, da escuridão da noite, velório, fantasmas, mula sem cabeça, lobisomem, assombrações. Quem nunca teve uma ponta de cisma que acenda a primeira vela. Venho de um tempo em que os mortos eram fotografados no esquife, com um rosário entrelaçando as mãos, enfiados em uma fantasmagórica mortalha roxa, rodeados de parentes chorosos posando para a posteridade.
Ou, como disse Nelson Rodrigues numa daquelas suas crônicas deliciosamente sacanas: “Antigamente, o defunto tinha domicílio. Ninguém o vestia às pressas, ninguém o despachava às escondidas. Permanecia em casa, dentro de um ambiente em que até os móveis eram cordiais e solidários. Escancaravam-se todas as portas, todas as janelas; e esta casa iluminada podia sugerir, à distância, a ideia de um aniversário, de um casamento ou de um velório mesmo”.
A tradição ainda persiste em alguns rincões Brasil afora e até mesmo em regiões históricas de São Paulo, como foi o caso das exéquias da escritora Ruth Guimarães, na chácara da família em Cachoeira Paulista. O filho dela, meu amigo Joaquim Maria Botelho, diz que ela manteve a elegância e a boniteza no seu esquife.

Ah! Na minha meninice os retratos da morbidez em preto e branco ficavam pendurados pelas paredes da casa, tais quais obras de arte, como se o falecido estivesse em eterna vigilância.Com mil diabos, como aquilo era perturbador!

Morte, vida, amor e ódio são temas pilares na literatura desde os tempos do zagaia: escrever sobre eles exige malabarismo criativo para não ficar na vala comum. Acima de tudo, porém, esta imersão é permeada por outro tipo de relação que anda escasseando no mundo moderno: a amizade, sentimento que na essência acabou banalizado com o advento das redes sociais.
Assim, não faço ideia de como será a receptividade a essas porandubas, mas, espero que, se a leitura não for agradável, pelo menos sirva para apoiar a perna manca da mesinha do computador ou da sala de jantar.
São Paulo, setembro de 2014

O autor

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