quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Engodos



Grito teu nome em silêncio,
Não há um mísero eco.
Só o vento me ouve,
Ainda assim...

Nada responde,
É apenas um estúpido cupido,
Que sequer pode convencer-te
A sair dessa esquizofrênica carapuça.

Por isso, rendo-me aos abraços
Da minha fantasia desbotada,
Fecho os olhos e apenas sonho.
Vejo brumas, dou meia-volta no tempo..

Ah! Tudo estava escrito
Nas estrelas daquela noite.
Mas, preso no elogio da cegueira,
Não li o que teus olhos me diziam.

Teu desprezo me consome,
Corrói minhas entranhas,
Devasta, denigre e me humilha.
Sei...são delírios (teus) em forma de loucura

Não podes ou tem medo de enfrentá-los,
Preferes a ambiguidade da dúvida,
Tão frágeis são tuas certezas

E quase nada tuas convicções.

(SP, fev/15)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Carnavalha

Carnavalha

Quando a orquestra tocar a última canção
E a colombina, de morta se fizer entre confetes,
Congele a cena, dê um close no salão,
E veja como chora o pierrô sem paetês.

Agora mesmo eram dois e uma mesma sombra,
Rodopiando segredos sob máscaras,
Promessas que só o frenesi vislumbra
Antes que o dia amanheça em cinzas.

Lá fora, o ribombar da última bateria
Inflama passistas, levanta a galera.
Não há folião que não sorria.
Ai de mim, quem me dera!

Aqui, preso em velhas mesmices,
Vejo o cortejo, que canta a minha sina,
Resgatando as mesmas tolices
Do pierrô que perdeu a colombina.


(SP, fev 2015)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Roteiros



 Roteiros

Dia desses vou te encontrar
Numa esquina da vida
Ou no balcão de um boteco qualquer.

Quem sabe numa balada,
Quiçá na procissão dos afogados
Por que não no altar dos desesperados?

Pouco importa onde e quando será.
Creia-me: não há destino nessas crenças,
Nem esperanças desvestidas de amor

Resta manter acesa a chama
Porque, afinal, o fogo da paixão
Quase sempre não passa de ilusão.

(DP, fevereiro 2015)





segunda-feira, 11 de abril de 2011

Sic Transit

Pense na palavra, em qualquer palavra,
Como o ensaio para o texto que virá.
Junte-a com outras, quaisquer que queiras
E terás o princípio do universo.

Adicione-as ao estilo que te identifica,
Construa uma cadeia de ideias,
Siga a linha do pensamento
E saberás que caminho seguir.

Seja ousado,
Atrevas-te a exigir mais
Persiga novos desafios
E encontrarás o objetivo da tua vida!

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Perseu no inferno (ensaio)

Arrogante, nauseabundo
Perseu se achava o tal
Qual umbigo sem fundo
Não tinha noção do real

Prepotente, demoníaco
Se achava de tudo, capaz
No fundo, era só um maníaco
Pobre e solitário rapaz

Ilhado nessa redoma
Escravo dos seus demônios
Não percebeu o sintoma
Que lhe corroia os neurônios

Vieram os melhores médicos
Mãe de Santo e benzedeira
Uns e outros todos céticos
Perplexos, sem eira nem beira

O pai ausente, choroso acorreu
A mãe, tal e qual messalina
Desgarrada na vida, o filho perdeu
E assim, o inferno ganhou Perseu

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Mestre Anacleto

Inquieto
Tanto quanto
Discreto

Concreto
Direto e reto
Ereto!

Repleto
Nem sempre
Completo

Correto
Não um grande
Intelecto

É Anacleto
Com seu dialeto
E o velho amuleto

Balança o esqueleto
Pede respeito
Sobe ao coreto

O filho dileto
Faz-lhe um afeto
Ensaiam dueto

Abre o livreto
Pinça tema bem seleto
Provoca um minueto

Delira a plebe em sueto
Chega mais o Aniceto
Traz também seu Rigoletto

Agora já é um quarteto
Cada qual com seu folheto
Todos num só projeto

Sobe a música do gueto
Canta a lira do Gepeto
Raspa e vibra o reco-reco



O festeiro é o Bebeto
Com ele nada é secreto
Não tem hora não tem teto

Sobe rojão como espeto
No céu escreve o epiteto
Para o amigo predileto

Nem culto nem analfabeto
Muito menos um ser abjeto
Viveu e morreu Anacleto!

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Imagem sem maquiagem

Até pouco tempo era comum ouvir-se que “uma imagem vale mais do que mil palavras”. Se a expressão, usada a cântaros, já destoava dos princípios da semiótica, o advento da Internet e a evolução das ferramentas tecnológicas cuidaram de dar outras conotações àquele jargão. Se a imagem vem ganhando piques (e pixels) de alta resolução e qualidade, não é menos verdade que os recursos para formatar o texto têm sido cada vez mais generosos, abrangentes e acessíveis.

Toda essa modernidade está à mão para facilitar a vida dos comunicadores, quer no campo do marketing, das várias mídias e dos jornalistas que fazem Assessoria de Imprensa. Então, com tantas facilidades, menos dificuldades nas relações com o usuário final, certo? Só até a página nove. Por que, em se tratando daquela outra “imagem” – a que fica na retina crítica do público - o buraco é mais embaixo.

Empresas, da área privada ou governamental, estão sujeitas a ruídos de comunicação se não forem transparentes na divulgação de suas ações e/ou produtos e na formulação de estratégias corretas para correção de rumos quando isso se fizer necessário.

Instituições que “vendem” entretenimento estão mais expostas a ranhuras em sua imagem por que, de certa forma, os “produtos” que oferecem normalmente são destinados a públicos distintos e, portanto, exigem que sua divulgação seja pontual, dirigida. A Assessoria de Imprensa é abastecida por várias fontes e precisa consolidar essa matéria prima em informação linear.

Não pode haver dúvida de informação no texto final, que será divulgado aos jornais, rádio, tevê e web. Por isso, a primeira ação da Assessoria de Imprensa deve ser profilática: checar a possibilidade de alteração na programação em relação a data, horário, local, participantes, bilheteria, acesso ao público etc. Uma vez disparado o texto, torna-se desgastante, para não dizer “mico”, reenviá-lo com a correspondente “errata”.

Dois exemplos com grau de ressonância diferentes. A Assessoria de Imprensa está pronta para iniciar a divulgação de um aguardado show com artistas famosos. O evento é gratuito e a expectativa de público é de casa cheia. No rodapé do texto, onde vão as informações de serviço, deve ficar clara a forma de acesso das pessoas: haverá distribuição antecipada dos ingressos ou as pessoas entram pela ordem de chegada?
Problema aparentemente banal, mas, imagine centenas de pessoas debaixo de um sol escaldante sem ter absoluta certeza de que vai conseguir entrar. Isso gera ruídos desagradáveis que, potencializados, afetam a imagem da instituição no quesito de organização.

Outro caso, este grave: jornalista tinha na pauta a cobertura de uma exposição de arte contemporânea e foi até a galeria conferir o trabalho do artista. Tarde de verão, calor insuportável no recinto, risco de deteriorar as obras ali expostas. Não tendo encontrado quem lhe desse explicações para aquela falha, no dia seguinte elogiou as obras do artista e fez críticas contundentes ao “descaso” da instituição. O problema: a tubulação do ar condicionado se rompera, a pessoa responsável comunicou ao seu diretor mas este não retransmitiu a informação à Assessoria de Imprensa. Um caso típico em que a emenda certamente ficaria pior que o soneto.

Resumindo: a pior crise que uma empresa/instituição enfrenta é aquela em que sua credibilidade fica arranhada. Que o digam as montadoras de carros com os seus cada vez mais frequentes “recall’. O cenário ideal nesse aspecto da comunicação é ruído zero. Nas instâncias de governo, onde o telhado é sempre de vidro, a figura do ouvidor exerce papel fundamental para as relações com a população, a imprensa e demais poderes constituídos. O ouvidor (ou ombudsman) é instrumento que vem tendo curva ascendente de inclusão na estrutura das grandes empresas.

Outro mecanismo prático e funcional é o clipping de notícias – não mais aquele anacrônico calhamaço de papel, mas o virtual que o cliente recebe por Internet em sua mesa de trabalho logo pela manhã. Processo simples que dá à Assessoria de Imprensa as referências e os sinais do que pode interferir na sua agenda de trabalho – e, de preferência, priorizando aquelas que podem ser chamadas de notícias negativas. Prevenir, antecipando-se a possíveis dores de cabeça, ainda é o melhor remédio!