Dines e a Anatomia
do Cala a Boca
Motes para dissecar o
tema não faltavam e havia um bem fresquinha que permearia o debate: a censura
imposta por um juiz do TJ de Brasília ao jornal O Estado de S. Paulo, em julho
de 2009. Coube a Mayrink, que trabalhava lá, fazer a retrospectiva histórica
dos períodos de censura vividos pelo centenário jornalão Um “caso emblemático”
diria Bucci. Ele arriscou-se a prever que o caso seria “a prova dos nove” para
a democracia brasileira. A censura da família Sarney ao Estadão continua em
vigor.
Campo de batalha
Em 2010, beirando os
80 e com 58 anos de estrada, Dines já havia percorrido praticamente todos os capítulos
da via sacra imposta pelos vários ritos da censura – da perseguição moral e
física à prisão. Nesse período, que com fino humor denominou de Anatomia do Cala a Boca, Dines elencou
os 10 castigos que recebeu em função de decisões que tomou como editor e do que
escreveu como repórter. “Uma demissão a cada 5,8 anos de trabalho, quase duas
cacetadas por década”.
Corroborando opinião de Mayrink, o
ex-editor do Jornal do Brasil e diretor do Observatório da Imprensa foi direto
ao ponto: “O Judiciário está se tornando um dos mais ferrenhos algozes da
liberdade de expressão”. E, o que dizia ser uma triste constatação: o exercício
do jornalismo livre no início desta segunda década do século XXI tornou-se
ainda mais difícil do que em meados do século XX. “O inimigo mudou de endereço,
mudou de trajes e multiplicou-se”.
Nesse cenário, que ele comparou a um campo
de batalha, é que se trava a guerra escancarada pela conquista dos corações e
mentes atordoados pelo excesso de informações secundárias. E foi dali que Dines pinçou para os participantes do
seminário o episódio do embargo que em 2008, segundo ele, foi autoimposto pela
grande mídia para não dar destaque ás comemorações dos 200 anos de nascimento
da imprensa brasileira.
“Quem fabricou essa mordaça?”. Ele
mesmo responde: “Uma rede que funciona nos desvãos da Associação Nacional dos
Jornais, constituída pelos editores formados nos cursilhos da Opus-Dei e da
Universidade de Navarra”.
Para Dines, resgatar o início de
circulação do Correio Braziliense também implicaria falar do seu fundador,
Hipólito da Costa, que era maçom e foi preso pela Inquisição portuguesa. “A
Inquisição e a censura religiosa não queriam ser lembradas. Significa que não
morreram? Significa que mudaram de nome e continuam tão poderosas quanto eram
antes”.
Calejado,
sem meias-palavras, o decano presenteou a plateia com um elenco de epítomes que
hoje seguramente fazem parte de sua rica biografia. Algumas delas:
–
Fazer jornalismo hoje no Brasil e na
América Latina está se tornando mais difícil e mais complicado do que no
passado recente.
– A palavra censura e o ato de
censurar não estão em desuso na América Latina.
– Examinada de longe, esta parte
do Novo Mundo em que vivemos parece um território liberado do autoritarismo e o
gigante brasileiro aparece como a prova mais eloquente da normalização
política.
– A censura tornou-se
contagiante, mimetizada.
– O censor fardado foi
substituído e multiplicado pelo censor civil, de batina, ou de fatiota de
executivo.
– …A imprensa abdicou do papel de
instituição mitológica. Deixou de ser o famoso Quarto Poder…
– O toque romântico de buscar a
verdade e, quando necessário, seguir na contramão, foi definitivamente
aposentado e está sendo substituído pelo “jornalismo de resultados”.
(Daniel Pereira)