terça-feira, 24 de fevereiro de 2015



Razão de ser
A globalização tem produzido nos últimos 20 anos alguns fenômenos – hoje, não mais surpreendentes – que mudaram radicalmente o panorama das comunicações e do relacionamento entre os seres humanos. As redes sociais disputam dia-a-dia o privilégio de oferecer ferramentas cada vez mais sofisticadas que podem funcionar tanto em Arapiraca da Serra quanto em Samoa – minúsculo país no sul do Pacífico - onde o governo simplesmente decidiu abolir do seu calendário o dia 30 de dezembro.

Nesse oceano de criatividade que teve em Steve Jobs o seu ícone, o acesso às informações é uma porta permanentemente aberta ao conhecimento e o inusitado fica apenas a um clique da revelação. A velocidade que impulsiona as pesquisas em todas as áreas da curiosidade científica traz pelo menos uma manchete por dia. O tempo urge – deve ser o lema dos nossos pardais da modernidade.
No campo das relações culturais e da comunicação entre os povos os efeitos dessa evolução têm sido mais que benevolentes – e isso talvez tenha absorvido o impacto do mal maior causado pela onda belicista que vem derrubando governos autoritários no berço da civilização. É o Leviatã, título do livro escrito pelo filósofo inglês Thomas Hobbes em 1651 para justificar pelo estado da natureza humana a necessidade da guerra para estabelecer a paz.

Ao largo dessas sandices que abrolharam o noticiário internacional desde a virada do século, países irmãos como Brasil e Portugal consolidam um caminho de identidade que a cada dia diminui eventuais ou pontuais discrepâncias de entendimento no campo político, cultural, econômico e diplomático. Por isso, não há como não ter orgulho de carregar nas veias esse DNA cultural, quando se é descendente de Pereiras e Rodrigues, oriundos de Trás-os-Montes e miscigenados pelas andanças entre Minas Gerais e Bahia.

(Texto publicado originalmente no Portal da Comunidade Luso-Brasileira, em 2012, a convite da editora Maristela Bignardi)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Engodos



Grito teu nome em silêncio,
Não há um mísero eco.
Só o vento me ouve,
Ainda assim...

Nada responde,
É apenas um estúpido cupido,
Que sequer pode convencer-te
A sair dessa esquizofrênica carapuça.

Por isso, rendo-me aos abraços
Da minha fantasia desbotada,
Fecho os olhos e apenas sonho.
Vejo brumas, dou meia-volta no tempo..

Ah! Tudo estava escrito
Nas estrelas daquela noite.
Mas, preso no elogio da cegueira,
Não li o que teus olhos me diziam.

Teu desprezo me consome,
Corrói minhas entranhas,
Devasta, denigre e me humilha.
Sei...são delírios (teus) em forma de loucura

Não podes ou tem medo de enfrentá-los,
Preferes a ambiguidade da dúvida,
Tão frágeis são tuas certezas

E quase nada tuas convicções.

(SP, fev/15)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Carnavalha

Carnavalha

Quando a orquestra tocar a última canção
E a colombina, de morta se fizer entre confetes,
Congele a cena, dê um close no salão,
E veja como chora o pierrô sem paetês.

Agora mesmo eram dois e uma mesma sombra,
Rodopiando segredos sob máscaras,
Promessas que só o frenesi vislumbra
Antes que o dia amanheça em cinzas.

Lá fora, o ribombar da última bateria
Inflama passistas, levanta a galera.
Não há folião que não sorria.
Ai de mim, quem me dera!

Aqui, preso em velhas mesmices,
Vejo o cortejo, que canta a minha sina,
Resgatando as mesmas tolices
Do pierrô que perdeu a colombina.


(SP, fev 2015)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Roteiros



 Roteiros

Dia desses vou te encontrar
Numa esquina da vida
Ou no balcão de um boteco qualquer.

Quem sabe numa balada,
Quiçá na procissão dos afogados
Por que não no altar dos desesperados?

Pouco importa onde e quando será.
Creia-me: não há destino nessas crenças,
Nem esperanças desvestidas de amor

Resta manter acesa a chama
Porque, afinal, o fogo da paixão
Quase sempre não passa de ilusão.

(DP, fevereiro 2015)