segunda-feira, 30 de março de 2015


Seleção Natural


A jabuticaba verde,
Ansiosa para envelhecer,
Perguntou à madura
Por que ninguém a queria.

Não é que não me querem,
Disse a madura, altiva e arrogante.
É que ainda não surgiu uma boca
Digna de minha textura e doçura

Você não tem medo do futuro?
Se demorar muito pode ficar amarga,
Apodrecer e morrer de madura.
Olha quantas amigas já se foram.

Não se preocupe, querida.
Você é verde, tem muito a aprender,
Enquanto eu, desfruto de sabedoria
E sei que minha vez está chegando.

Madura e verde nem perceberam
Quando o corcel branco parou
E da sua sela o príncipe saltou

Contemplou as pequenas notáveis
Como se escolhendo as mais saudáveis
Pareceu-lhe ter ouvido alguém discutindo

Príncipe dos meus sonhos,
Eu sou quem deves apanhar primeiro
Tenho mais fibras, mais vitaminas

Madura mente, meu gentil senhor
Olhe para minha silhueta,
Veja como esbanjo sais minerais.


O príncipe aproximou-se da árvore.
Serviu-se de algumas vizinhas das duas
E recolheu muitas outras ao cesto.

As duas jabuticabas se olharam.
Uma deixava sutil ruga à vista.
Desprezada, caiu de madura.

À outra, o príncipe estendeu a mão,
Aproximou-a dos olhos e disse:
És bonita, mas ainda muito verde.








terça-feira, 24 de março de 2015



 Meu vizinho alemão da KGB
 Daniel Pereira

Há quanto tempo o senhor fuma? A pergunta que não queria calar desde
que há alguns anos fui admitido no clube dos hipertensos, agora era
assustadora. A sentença do terrorista de jaleco branco depois de uma
breve aula sobre fibrilação atrial (FA), o tipo mais insinuante de arritmia
cardíaca, foi curta e grossa: apague definitivamente o cigarro, beba com
moderação e pratique uma atividade aeróbica. Caminhe!
 Era sexta-feira. Medrei. Não fui ao happy hour. No domingo, 11 de setembro,  acordei com o rádio repetindo à exaustão a retrospectiva dos 10 anos do pior pesadelo do século 21. Girei o dial para a Bandeirantes e pesquei o âncora desafiando os ouvintes a responder a pergunta que copiou da propaganda de uma empresa aérea: Quando foi a última vez que você fez alguma coisa pela primeira vez?
Topei a proposta. Ainda não conhecia o calçadão (antigamente isso era conhecido como pista de Cooper) da avenida Caetano Álvares. Poderia ir ao Horto Florestal, como sempre fazia. Mas não seria conveniente para um sedentário e ex-fumante recente enfrentar subidas que exigem muito esforço físico. De qualquer forma, ou por cagaço mesmo, pensei que seria boa ideia levar uma companhia. Ninguém estava disponível. Levo o cachorro? Melhor não, o cara é antissocial. Já sei! Vou levar Sagarana, do Guimarães Rosa para ler à sombra de uma bela árvore depois da caminhada. O mineiro de Cordisburgo (hibridismo do latim e alemão que significa Vila ou Cidade do Coração), também foi diplomata e médico (entre outras atividades), era hipertenso, obeso, sedentário e fumante inveterado. Fico imaginando como deveria ser o diálogo entre o médico e o escritor. Eleito imortal da Academia Brasileira de Letras, despediu-se com um discurso apoteótico e premonitório: “As pessoas não morrem, ficam encantadas”. Encantou-se três dias depois.
*
 De volta à terra. A decisão de não levar o cão foi acertada: ali ele seria apenas mais um na matilha. Aliás, para quem é cinófobo, o calçadão da Caetano Álvares não é lugar mais recomendável para uma caminhada tranquila.
Caninos à parte, o percurso de quase cinco quilômetros logo se revela um prato cheio de informações em todos os sentidos.A paisagem dos dois lados da avenida reserva situações que vão do hilário ao bizarro. Ou trágico, como o assassinato de um valente coronel da PM, em 2008.
"A vida é uma tragédia quando vista de perto, mas uma comédia quando vista de longe". (Charles Chaplin). Talvez seja assim que se sente a garota-propaganda com pernas de pau, que se arrisca no asfalto berrando as atrações de uma concessionária de carros. Um pouco à frente, o exemplo de banalização do sincretismo sexo-religioso: no andar de cima do sobrado a escola de dança do ventre, no térreo um templo evangélico, que bem poderia chamar-se Igreja das Putas Tristes por que, nos fundos funciona um bordel com o sugestivo nome de Vem cá, meu bem! E como tem freguês, meu camarada! Aleluia, irmãs, aleluia!
Perto do meio-dia. O aroma de picanha na brasa que exala das
churrascarias é um desafio torturante para os ‘atletas’ do calçadão. Melhor acelerar o passo e segurar a vontade. É o que faz a menina de walkman vermelho e rabo-de-cavalo esvoaçante que me ultrapassa, como Peter Pan flutuando entre as árvores da alameda. Visual interessante e generoso, um colírio, mas que dura só o tempo de ela sumir na primeira curva.
*
Nesse devaneio não me dei conta do magote de gente invadindo o calçadão. Era uma gincana. Uma pretensa sacada de merchandising. À frente, um agitador de trejeitos delicados tentava imitar Silvio Santos, Faustão, Lula, Clodovil e similares. Se tivesse planos de seguir carreira de comediante estaria ferrado. O fato é que o sujeito convidava os transeuntes a aderir ao que ele chamava de passeata ecológica. Uma fajutice, claro!
A primeira vítima do animador foi um afrodescendente com silhueta de armário e cara de Vovó... Zona, personagem do ator Eddie Murphy.Tipo enjoado, logo se via, pela elegância do agasalho de grife marrom com listras amarelas no peito um brasão, em amarelo e vermelho, com as iniciais KGB.
  - Alemão?!
 Diante do olhar de galinha do animador, não deixou dúvida:
 - É, isso mesmo: A-LE-MÃO!
 (“Além de tudo um gozador”, pensou o rapaz. “Me ferrei”)
Não teve tempo de engatar o papo. Um camarada, com jeitão de leão-de-chácara, tomou-lhe o microfone e despejou um caminhão de esporros na cabeça dele. Aos trancos e barrancos o rapaz ameaçou correr, mas foi barrado logo à frente por dois homens que saíam de uma viatura da polícia. Um dos policiais identificou-se como delegado. O outro, investigador. O rapaz tremeu na base, mas logo foi tranquilizado. “Fica calmo. A gente sabe da bronca da pensão alimentícia da tua mulher, mas essa aqui não é contigo”.
 - Então, doutor, tô liberado?
 - Negativo, campeão. Este (mostra a foto) é o sujeito com quem você
estava conversando, certo? Ele disse seu nome?
 - O negão é um gozador, doutor. Disse que se chama Alemão. 
O rádio da viatura interrompeu a abordagem “O suspeito saiu do
calçadão e entrou numa lan-house”, informava outro policial. “Ok, QSL
(entendido), mantenha-se em QAP (na escuta). Vou deslocar a equipe Alfa
para o final da avenida”.
 - Voltando à vaca fria, meu rapaz. O que mais ele disse. E não minta...por que se você estiver escondendo a verdade pode ser indiciado como cúmplice.
 - Deus me livre, doutor – o rapaz suava em bicas. Pânico.(Pausa, puxa pela memória).  Olha, no agasalho dele ele tinha umas letras desenhadas no peito...dessas, de time de futebol....Era Q, não...K...G...B.
*
Os policiais se entreolharam. “Hum, aí tem”, balbuciou o delegado. Reuniu a equipe. Até aquele momento ele ainda não havia revelado aos seus subordinados o verdadeiro motivo daquela caçada.
 - Bem, pessoal. Chegou a hora da verdade. Prestem atenção. Vocês estão participando da Operação KGB. Estamos cooperando com a Interpol na busca de um alemão criminoso de guerra. Ele era agente duplo e também trabalhava para a polícia secreta da antiga União Soviética, a KGB, e acusado de crimes contra a Humanidade. O rapaz aí é conhecido como o Alemão da KGB e seria o filho do criminoso. Entendido? Vamos lá. Vamos buscar o rapaz
Para o incauto transeunte, o aparato policial na porta da lan-house impressionava. Será que prenderam o Beira-Mar? Não – pitacava outro – ouvi que o Marcola fugiu. Pode ser ele. Vi na televisão que o bandido da luz vermelha voltou a atacar...Sai da tumba, meu, esse aí já era...Ah! Deve ser pegadinha...E por aí caminhava o besteirol quando surge a equipe do programa policial Brasil Alerta. Afagos, loas e confetes ao delegado que conduzia a operação e lá vem o Alemão de braços dados com dois soldados (que ninguém é herói e a PM também havia sido chamada para reforçar o cerco ao perigoso meliante).
Já viram um boi entrando no corredor da morte?  O olhar de tristeza do animal é um misto de autopiedade com pedido de socorro que corta até mesmo o coração de uma pedra. 
Se os matadouros tivessem paredes de vidro todos seriam vegetarianos”. (Paul McCartney)
Esse era o Alemão que chegava à delegacia. Documentos e burocracias de praxe, começa o interrogatório. Ele, cabisbundo e meditabaixo...
-Então, senhor Gunther Benedito da Silva – nome chique, hein! O senhor pode nos explicar por que é conhecido como o Alemão da KGB, conforme nos disseram várias pessoas que o conhecem e...
*
- Com licença! – Irrompe a sala a elegante senhora, que se identificara como advogada do suspeito. Chamava a atenção pelo vistoso casaco branco sobre a saia vermelha que generosamente deixava à mostra os joelhos. Pinta de balzaqueana da elite. Um must para o gosto dos policiais, acostumados a lidar com a ralé, aquela era uma visão de embasbacar. E o Alemão ali, tão pasmo e surpreso quanto os tiras.
- Está havendo um terrível equívoco com o meu cliente. (Ela tinha um leve sotaque estrangeiro). Na verdade, abuso de autoridade. Um delírio egomaníaco. O homem que vocês estão procurando não é este aqui...E nem existe.
- Como! – subiu nas tamancas o estupefato delegado chefe da operação.
- Se a dou-to-ra se atreve a vir no meu quintal dizer besteiras desse tipo deve também saber que, advogada ou não, posso detê-la por desacato. Quem lhe deu o direito de apontar o dedo para mim?
- ISSO AQUI! Joga na mesa a cópia de um habeas corpus preventivo.
- Puta que pariu! Catso! Estou ferrado! Do que se trata, afinal de contas, doutora (agora, num tom civilizado)?
Sem perder o fair play, a doutora Ingrid Oliver Mezzacappo abriu a pasta e despejou um calhamaço de documentos que, além do HC, cancelavam a iminente prisão do Alemão e comprovariam a sua inocência. Foi um soco no fígado do policial, um flash do inferno. Perplexo, incrédulo, provavelmente já antevia as consequências de todo aquele imbróglio. Que ainda não tinha terminado.
- Doutor, o que o levou a empreender uma investigação atabalhoada como essa sem o aval de seus superiores? Fique sabendo que amanhã mesmo vou representar contra o senhor na Corregedoria de Polícia Civil.
- Podemos conversar a sós, na minha sala – pediu, humilde, o delegado.
- Não temos nada mais para conversar.
Àquela altura, além do repórter do Brasil Alerta, o bafafá na delegacia era a principal pauta daquele domingo - lembram? – o fatídico 11 de setembro, 10 anos do atentado terrorista a Nova Iorque. O DP já saía pelo ladrão.
- Doutora (implorando, patético), a senhora precisa levar em conta que tínhamos uma pista muito forte. Não é todo mundo que é conhecido como o Alemão da KGB, concorda?
- Discordo. Passar bem.
*
Os urubus da imprensa já a rodeavam no tradicional corpo-a-corpo, ávidos em torturar a entrevistada com microfones e câmeras fotográficas. A doutora Ingrid chamou para perto dela o Alemão, que a abraçou, beijou-lhe o rosto e derramou-se em lágrimas. Danke, schewster, mein angel, danke!
Cena emotiva, ninguém entendendo lhufas. Irmã? Obrigado, meu anjo???
- É isso mesmo. Não se iludam com as aparências. O Gunther, que vocês chamam de Alemão, é meu irmão. Filho da segunda esposa de meu pai. Não é o bandido que a polícia está querendo fazer crer.
- Então, a polícia pegou a pessoa errada?  Do que ele está sendo acusado?  A senhora vai processar a polícia?
- Calma. Vou explicar tudo de uma vez e ponto final. Não quero perguntas.
O alvoroço na delegacia cresce vários decibéis com a chegada do delegado-geral de polícia e do secretário da segurança pública. O pentelho assessor de imprensa se apressa em anunciar que depois da advogada o secretário daria rápida entrevista.
- Fale, doutora – pediu o secretário, um sujeito com aquela eterna cara de mau do  Lee Marvin. Eficiente e respeitado, diziam.
A advogada foi didática no passo-a-passo do esmerdalho. Primeiro, mostrou o habeas corpus preventivo, que ela carregava já há um ano quando soube que a Interpol procurava o seu pai. O pai tinha sido da Gestapo, a temida polícia secreta da Alemanha. Trabalhava no setor de contra-espionagem com atuação na União Soviética.
Confundido com o irmão gêmeo, que também era da Gestapo, em 1943 o pai foi acusado de traição – teria ajudado a facção anti-Hittler conhecida como Círculo de Oster. O irmão soube antes e o ajudou a sair do país. Ele se refugiou com amigos prussianos que pertenciam à KGB – essa a polícia secreta da União Soviética. Mudou de identidade. Dois anos depois teve que fugir.Com o fim da guerra e a derrota da Alemanha, também seria alvo da Mossad, a polícia secreta de Israel que vingava os judeus. Foi para o Canadá, Estados Unidos e finalmente chegou ao Brasil. Havia ouvido maravilhas daqui. Com nova identidade, refugiou-se no oeste do Paraná e depois fixou-se em uma colônia de alemães no interior do estado de São Paulo.
Tendo estudado engenharia, também conhecia e manuseava explosivos. Mão-de-obra que estava sendo requisitada na construção de Brasília, para onde foi em 1958. Ficou lá até 1965, quando foi convidado para trabalhar na área de segurança de uma multinacional alemã fabricante de armas e munições, em São Paulo. As iniciais da empresa: KGB. Casou-se com uma descendente de alemães e teve uma filha – ela, Ingrid. A esposa morreu no parto. Dois anos depois, conheceu uma negra. Dessa união nasceu Gunther, o nosso Alemão. Os negócios prosperavam e a vida secreta do pai já eram águas passadas. Ele não era um criminoso de guerra – insistia Ingrid.
Na multinacional, ganhou prestígio e galgou posições até chegar ao topo como acionista e diretor da empresa. A filha foi estudar no exterior, casou-se com um italiano e Gunther ajudava o pai na empresa, cuidando da área de atividades culturais. Ele queria mesmo era ser ator.
- Meu pai morreu em 2009, aos 94 anos. Nesse mesmo ano fui procurada por agentes da Interpol. Eles me disseram que só vieram a descobrir a verdadeira identidade de meu pai recentemente, mas não encontraram nenhum indício de que ele tivesse participado das ações criminosas da Gestapo. Me disseram para ficar alerta com informações falsas e chantagens contra a nossa família e recomendaram ter sempre em mãos o habeas corpus preventivo para os herdeiros do meu pai. O delegado não checou direito a validade da informação que recebeu de um amigo dentro da Interpol e armou essa pataquada toda. Acho que está tudo explicado.
*
Antes que os jornalistas pudessem interpelar a advogada, o secretário de segurança pública pediu o microfone e fez a seguinte declaração:
- Nós já sabíamos desde a manhã de hoje dos riscos dessa operação, mas preferimos prestigiar e confiar na palavra do delegado que a comandou por se tratar de um dos mais competentes policiais de São Paulo. No entanto, também é nosso dever informar que um erro desse tamanho não o exime de punição. Ele errou, sabia disso e está afastado até a conclusão do inquérito que vai apurar o caso. Boa tarde a todos!
Enquanto o delegado saia pelas portas do fundo, jurando depenar o amigo da Interpol que o pusera naquela gelada, os repórteres reservavam uma última pergunta à advogada:
-Doutora, por que a senhora acha que a polícia foi induzida ao erro pela denúncia anônima equivocada?
- Venham aqui, por favor – e chamou o pessoal até a janela. Estão vendo aquela BMW cinza ali fora? Meu irmão é quem mais a usa. Vejam a placa: KGB 1109.
Era isso!!! Eu sabia. Já tinha visto, mesmo de relance, o tal alemão saindo daquele carro. Eles moravam em uma mansão perto do Horto Florestal, por onde eu passava nas minhas caminhadas antes da pane elétrica no coração. Belo, que dia! Auf Wiedersehen!










terça-feira, 24 de fevereiro de 2015



Razão de ser
A globalização tem produzido nos últimos 20 anos alguns fenômenos – hoje, não mais surpreendentes – que mudaram radicalmente o panorama das comunicações e do relacionamento entre os seres humanos. As redes sociais disputam dia-a-dia o privilégio de oferecer ferramentas cada vez mais sofisticadas que podem funcionar tanto em Arapiraca da Serra quanto em Samoa – minúsculo país no sul do Pacífico - onde o governo simplesmente decidiu abolir do seu calendário o dia 30 de dezembro.

Nesse oceano de criatividade que teve em Steve Jobs o seu ícone, o acesso às informações é uma porta permanentemente aberta ao conhecimento e o inusitado fica apenas a um clique da revelação. A velocidade que impulsiona as pesquisas em todas as áreas da curiosidade científica traz pelo menos uma manchete por dia. O tempo urge – deve ser o lema dos nossos pardais da modernidade.
No campo das relações culturais e da comunicação entre os povos os efeitos dessa evolução têm sido mais que benevolentes – e isso talvez tenha absorvido o impacto do mal maior causado pela onda belicista que vem derrubando governos autoritários no berço da civilização. É o Leviatã, título do livro escrito pelo filósofo inglês Thomas Hobbes em 1651 para justificar pelo estado da natureza humana a necessidade da guerra para estabelecer a paz.

Ao largo dessas sandices que abrolharam o noticiário internacional desde a virada do século, países irmãos como Brasil e Portugal consolidam um caminho de identidade que a cada dia diminui eventuais ou pontuais discrepâncias de entendimento no campo político, cultural, econômico e diplomático. Por isso, não há como não ter orgulho de carregar nas veias esse DNA cultural, quando se é descendente de Pereiras e Rodrigues, oriundos de Trás-os-Montes e miscigenados pelas andanças entre Minas Gerais e Bahia.

(Texto publicado originalmente no Portal da Comunidade Luso-Brasileira, em 2012, a convite da editora Maristela Bignardi)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Engodos



Grito teu nome em silêncio,
Não há um mísero eco.
Só o vento me ouve,
Ainda assim...

Nada responde,
É apenas um estúpido cupido,
Que sequer pode convencer-te
A sair dessa esquizofrênica carapuça.

Por isso, rendo-me aos abraços
Da minha fantasia desbotada,
Fecho os olhos e apenas sonho.
Vejo brumas, dou meia-volta no tempo..

Ah! Tudo estava escrito
Nas estrelas daquela noite.
Mas, preso no elogio da cegueira,
Não li o que teus olhos me diziam.

Teu desprezo me consome,
Corrói minhas entranhas,
Devasta, denigre e me humilha.
Sei...são delírios (teus) em forma de loucura

Não podes ou tem medo de enfrentá-los,
Preferes a ambiguidade da dúvida,
Tão frágeis são tuas certezas

E quase nada tuas convicções.

(SP, fev/15)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Carnavalha

Carnavalha

Quando a orquestra tocar a última canção
E a colombina, de morta se fizer entre confetes,
Congele a cena, dê um close no salão,
E veja como chora o pierrô sem paetês.

Agora mesmo eram dois e uma mesma sombra,
Rodopiando segredos sob máscaras,
Promessas que só o frenesi vislumbra
Antes que o dia amanheça em cinzas.

Lá fora, o ribombar da última bateria
Inflama passistas, levanta a galera.
Não há folião que não sorria.
Ai de mim, quem me dera!

Aqui, preso em velhas mesmices,
Vejo o cortejo, que canta a minha sina,
Resgatando as mesmas tolices
Do pierrô que perdeu a colombina.


(SP, fev 2015)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Roteiros



 Roteiros

Dia desses vou te encontrar
Numa esquina da vida
Ou no balcão de um boteco qualquer.

Quem sabe numa balada,
Quiçá na procissão dos afogados
Por que não no altar dos desesperados?

Pouco importa onde e quando será.
Creia-me: não há destino nessas crenças,
Nem esperanças desvestidas de amor

Resta manter acesa a chama
Porque, afinal, o fogo da paixão
Quase sempre não passa de ilusão.

(DP, fevereiro 2015)